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terça-feira, 3 de abril de 2012

Lembranças de minha mãe



Toda saudade vem sempre carregada de lembranças. 

Algumas lembranças que trago comigo me dão uma saudade danada de minha mãe. São aromas, perfumes, cores, sabores e coisas que basta ver, sentir ou comer para lembrar de Dona Antônia (Toinha, para os íntimos).
Minha mãe cozinhava muito e gostava do que fazia. Com certeza herdei dela o gosto pela cozinha. Até hoje algumas delícias preparadas por ela são inesquecíveis para mim e meus irmãos. Panqueca, strogonoff de camarão, rabanada, chuchu e cenoura à milanesa e bife rolè, entre outros com certeza tem o sabor de mãe. Isso sem falar em bolinho de feijão com farinha que ela comia amassando com as mãos. Ela adorava comer isso na hora do jantar. Nunca gostou muito de pão. Adorava tomar café preto, talvez porque fumasse muito.
E vem daí outra lembrança não muito boa, cigarros Continental, a marca do cigarro que ela fumou escondida de papai durante muitos anos. Para acompanhar o cigarro, além do cafezinho, confeitos de hortelã, que ela guardava escondidos no mesmo local em que escondia os cigarros para usar quando se aproximava a hora de meu pai chegar em casa. Era o pecado/segredo mais inocente que eu já vi na minha vida.
Toinha era bem humorada e, mesmo se estava aborrecida com alguma coisa ou alguém, sempre tinha um sorriso para quem chegasse lá em casa. Costumava dizer que os outros não tinham nada a ver com os problemas dela.  Gostava muito de música e dança. Até dançou pastoril na juventude. De vez em quando a família se juntava para dançar forró pé de serra, daqueles de duplo sentido, na casa de meu Tio Enéas, no bairro do Pinheiro. Lembro que ela adorava dançar e se fecho os olhos ainda consigo lembrar ela se sacudindo no meio do salão com papai e meus tios. Até se arriscava numa dose de Rum Montilla. Eram momentos felizes. Lembro que certa vez papai nos levou para ver o desfile das escolas de samba na Praia da Avenida e mamãe ficou em casa por algum motivo.  Acho que algum de meus irmãos era novinho ou estava doente.Quando voltamos, ela dormia embalada por doses de uma garrafa de Montilla que tinha em casa. Era perfeitamente compreensível, se lembrarmos que ela era meio alagoana e meio pernambucana, adorava frevo e folia. Deve ter sido uma tortura ficar ali “na vontade”.
Dona de casa passava o dia entre o fogão e a lavanderia, sempre com a roupa na altura da barriga um pouco úmida de lavar roupas à mão. Mas fazia isso sempre cantarolando alguma música brega sucesso naquele tempo. Seus ídolos eram Bartô Galeno, Amado Batista, Fernando Mendes e Odair José. “Parece que estou escutando ela cantarolando: “aquela menina em sua cadeira de rodas”...”; “no hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via você sofrendo a sorrir”.”; no toca-fitas do meu carro, uma canção me faz lembrar você...”; e “pare de tomar a pílula, pare de tomar a pílula, pare de tomar a pílula porque ela não deixa o nosso filho nascer.” Da cozinha para o quintal e dali para o corredor onde estendia as roupas e fumava o seu cigarro. Ali também ficavam algumas plantas que papai revendia e que me fazem lembrar dela por ali entre elas. Eram papoulas de várias cores e avencas em caqueiras e xaxins. Vez ou outra ela ia até a porta atender algum estudante ou vizinho querendo comprar flau (ou sacolé) que ela fazia e vendia. Passava horas enchendo aqueles saquinhos de vários sabores: coco, maçã, goiaba, coco e maçã. Eu ficava de língua rosada e lábios dormentes de tanto que chupava flau.
Existem outras coisas que me trazem recordações.  Lembro que ela gostava de comprar no catálogo da Avon. Não apenas gostava como também eram produtos que naquele tempo a gente podia pagar por eles. É bem verdade que hoje a Avon cresceu e os preços não estão mais tão acessíveis. Perfumes ela sempre comprava Cristal Classique e Contourè. Ainda na linha de cuidados com a beleza, recordo que ela só gostava de pintar as unhas com um esmalte  “ferrugem”. Era difícil vê-la com outra cor de esmalte nas mãos. Mas a vaidade de mamãe, muitas vezes, foi tolhida pelo machismo de papai. Ele não gostava que ela usasse cabelos curtos, maquiagem e nem calças compridas. Lembro que já adolescente eu me atrevia a maquiar mamãe para ir às reuniões de pais na Escola Técnica Federal de Alagoas onde meus irmãos estudavam. Ela sempre dizia: _ Nininha, o seu pai vai reclamar. Vai dizer que isso é coisa de rapariga. Eram tempos difíceis.
Olhando assim parecem poucas recordações, o que se justifica porque mamãe morreu cedo, antes de completar 40 anos, mas mesmo tão breve, deixou marcas que jamais se apagarão com o tempo.
Saudades do colo de minha mãe.

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